{"id":30149,"date":"2026-04-17T16:32:34","date_gmt":"2026-04-17T16:32:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ours.pt\/articles\/artificial-intelligence-wont-awaken-it-will-only-get-better-at-pretending\/"},"modified":"2026-04-17T16:43:47","modified_gmt":"2026-04-17T16:43:47","slug":"artificial-intelligence-wont-awaken-it-will-only-get-better-at-pretending","status":"publish","type":"articles","link":"https:\/\/ours.pt\/pt-pt\/articles\/artificial-intelligence-wont-awaken-it-will-only-get-better-at-pretending\/","title":{"rendered":"A Intelig\u00eancia Artificial n\u00e3o vai simplesmente \u201cdespertar\u201d, mas tornar-se cada vez melhor a fingir que o fez"},"content":{"rendered":"<p>A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o vai tornar-se consciente. E insistir nessa ideia diz mais sobre n\u00f3s do que sobre as m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>Em 1980, John Searle prop\u00f4s um dos exerc\u00edcios mentais mais influentes da filosofia da mente: o \u201cquarto chin\u00eas\u201d.<br>\nVamos imaginar uma pessoa fechada numa sala que n\u00e3o sabe chin\u00eas.<br>\nL\u00e1 fora, algu\u00e9m passa por baixo da porta, uma folha com perguntas escritas em chin\u00eas. Dentro da sala, encontra-se um manual com regras altamente detalhadas que a pessoa pode usar para processar as perguntas.<\/p>\n<p><strong>As regras s\u00e3o simples:<\/strong><br>\nSempre que entra um conjunto de s\u00edmbolos, a pessoa deve responder com outro conjunto espec\u00edfico de s\u00edmbolos obtidos do manual.<br>\nSeguindo essas instru\u00e7\u00f5es, a pessoa deve ser capaz de produzir respostas perfeitas em chin\u00eas.<\/p>\n<p>Para quem est\u00e1 do lado de fora, n\u00e3o existe qualquer d\u00favida:<br>\nA pessoa dentro da sala entende a l\u00edngua Chinesa.<br>\nMas a realidade \u00e9 outra. Dentro da sala, n\u00e3o h\u00e1 qualquer compreens\u00e3o de nada.<br>\nA pessoa limitou-se a seguir regras e a manipular s\u00edmbolos, como qualquer sistema de computa\u00e7\u00e3o, com ou sem capacidade generativa.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o que podemos tirar \u00e9 que um um sistema pode parecer inteligente sem compreender absolutamente nada.<\/p>\n<p>Esse sistema pode escrever, responder ou at\u00e9 mesmo convencer, sem ter qualquer no\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 a fazer ou sequer do que se est\u00e1 a passar. Sabe apenas que algo entrou, foi transformado e saiu.<\/p>\n<p>Podemos ficar impressionados e at\u00e9 satisfeitos com o resultado, mas, n\u00e3o podemos confundir flu\u00eancia com consci\u00eancia.<\/p>\n<h2>Se isto n\u00e3o \u00e9 consci\u00eancia, ent\u00e3o o que \u00e9?<\/h2>\n<p>Se queremos falar de consci\u00eancia, temos de sair do dom\u00ednio do c\u00e1lculo e entrar no da experi\u00eancia.<br>\nAnt\u00f3nio Dam\u00e1sio mostrou que a mente emerge da regula\u00e7\u00e3o do corpo \u2013 de um organismo que sente e reage ao seu pr\u00f3prio estado. Mas esta ideia n\u00e3o come\u00e7a na neuroci\u00eancia. Fil\u00f3sofos da fenomenologia como Maurice Merleau-Ponty e Edmund Husserl j\u00e1 tinham identificado um ponto essencial: A mente n\u00e3o existe separada do corpo, ela \u00e9 o corpo, e, os estado mentais resultam de processos f\u00edsicos, sendo a percep\u00e7\u00e3o situada, incorporada, vivida. Resumido, O corpo n\u00e3o \u00e9 um suporte da mente. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia.<br>\nNos seres vivos, consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 processamento \u2013 \u00e9 implica\u00e7\u00e3o, pela dor e pelo prazer, do mecanismo central que nos permite avaliar o mundo, ajustar o comportamento \u2013 fugir ou ca\u00e7ar? \u2013 e construir a continuidades entre estados.<\/p>\n<h2>E as m\u00e1quinas?<\/h2>\n<p>Os sistemas de IA podem simular linguagem, decis\u00e3o e at\u00e9 emo\u00e7\u00e3o.<br>\nMas n\u00e3o t\u00eam corpo no sentido fenomenol\u00f3gico.<br>\nN\u00e3o t\u00eam uma perspetiva situada no mundo, um interior que lhes seja dado em experi\u00eancia, um estado que precise de ser preservado<\/p>\n<p>Mais importante: n\u00e3o t\u00eam nada em jogo.<\/p>\n<p>Sem vulnerabilidade, n\u00e3o h\u00e1 urg\u00eancia.<br>\nSem urg\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 significado.<br>\nSem significado, n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia, e sempre que vemos uma m\u00e1quina a fazer alguma coisa, mesmo que nos pare\u00e7a humano, como chorar, ou rir \u2013 desde uma barbie dos anos 80 aos robos futuristas da coreia do sul ou da Boston Dynamics, estes fazem o que sempre fizeram melhor, simulam muito bem e cada vez melhor.<\/p>\n<h2>A fantasia persiste<\/h2>\n<p>Fala-se muito dessa ideia \u2013 a singularidade, o inevit\u00e1vel momento hist\u00f3rico que a intelig\u00eancia artificial se torna consciente e torna o humano, ou qualquer ser biol\u00f3gico pensante, obsoleto. Mas isso \u00e9 uma extrapola\u00e7\u00e3o, n\u00e3o uma conclus\u00e3o. Confunde-se aumento de capacidade com emerg\u00eancia de experi\u00eancia.<br>\nE s\u00e3o coisas bem diferentes.<br>\nA intelig\u00eancia artificial pode at\u00e9 simular tudo aquilo que reconhecemos como sinais de consci\u00eancia. Mas n\u00e3o pode ter consci\u00eancia como n\u00f3s. Porque a nossa n\u00e3o nasce do c\u00e1lculo \u2013 nasce do corpo, da experi\u00eancia e da necessidade de continuar. Resulta de milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o<br>\nNo fim, a diferen\u00e7a \u00e9 estrutural: As m\u00e1quinas processam o mundo.<br>\nOs seres vivos vivem-no.<br>\nE enquanto a consci\u00eancia depender de um corpo que sente, de uma perspetiva situada e de algo verdadeiramente em risco \u2013 a intelig\u00eancia artificial pode aproximar-se de n\u00f3s, mas nunca atravessar essa fronteira.<\/p>\n<h2>Tamb\u00e9m poder\u00e1 interessar:<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/ours.pt\/pt-pt\/articles\/ferramentas-europeias-de-ia-alternativas-e-o-futuro-digital-da-ue\/\">Ferramentas europeias de IA: Alternativas e o futuro digital da UE<\/a><br>\n<a href=\"https:\/\/ours.pt\/pt-pt\/articles\/a-nossa-rede-de-parceiros-para-as-candidaturas-a-financiamentos\/\">O seu projeto digital pode mesmo avan\u00e7ar!<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o vai tornar-se consciente. 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